
Amizade se faz no encontro.
A arte é o jeito da gente se encontrar.
O IMÚ é um lugar onde pessoas com deficiência e neurodivergentes, crianças e adultos, fazem amigos e fazem arte, ao lado de quem caminha com elas.
Há nove anos, sem parar.
De onde viemos
Crescer com um irmão que o mundo não sabia muito bem como receber.



Começou com três irmãos e alguns bonecos. Eu, a Tiwana, a do meio, e o Ton, o caçula. Sem roteiro nem vozes: a gente só manipulava, e os bonecos nos faziam rir. A brincadeira nunca acabou. Com o tempo entendi que essa era a melhor forma de me conectar com o meu irmão.
Fora de casa, o Ton não tinha lugar. O Brasil dos anos 90 não sabia receber uma pessoa com deficiência: a escola não precisava ter apoio, a cidade não tinha sido pensada para uma pcd, e tudo isso chegava num olhar estranho para quem se comunica de um jeito só seu. Não era maldade. Era o que uma sociedade sem acolhimento com todos ensina.
O Vidigal entrou nessa história antes do instituto. Estudei a vida inteira no Colégio Stella Maris, no Vidigal. Em 2011, em paralelo ao trabalho, comecei a visitar famílias de lá com pessoas com deficiência em casa, procurando o que eu faria no social. Não sabia a forma. Sabia que seria ali.
A inquietação era minha. A escolha foi de quatro. Meus pais, Newton e Agnes, minha irmã Tiwana e eu decidimos, em 2017, abrir espaço e tempo para famílias que viviam o que a gente vivia. Sem edital, sem patrocínio, sem plano de crescer. Só a convicção de que um espaço acolhedor, com a arte como conexão, precisava existir.
Mickael Noah, cofundador
O que a gente aprendeu

A primeira lição veio de casa e o Vidigal confirmou. Todo mundo cresce ouvindo que arte é coisa de quem tem talento, técnica ou formação. A gente viu o contrário, primeiro com o Ton, depois com cada pessoa que entrou pela nossa porta: arte não é uma habilidade que alguns têm, é uma linguagem que todos já falam. Não exige laudo, idade ou preparo. Exige só um lugar onde pintar, atuar e dançar seja permitido a qualquer um.

Quando a arte vira ferramenta de encontro, forma-se um laço entre as pessoas que vem antes das palavras e dispensa apresentação: duas crianças que nunca se falaram terminam a tarde dividindo o mesmo desenho, um adulto que raramente sai de casa volta na semana seguinte sem que ninguém precise chamar. Não é um laço que se mede em relatório. É um laço que se vê.

O encontro tem um centro, mas não fica nele. Uma pessoa chega, encontra um amigo, e isso reverbera: a mãe que esperava vira parte de uma roda de mães; a roda vira rede; e a rede traz novas amizades, novas pessoas, novas famílias, até o IMÚ virar o que é hoje, um ponto de encontro. A cada camada, mais potente.

No começo, o IMÚ recebia só pessoas com deficiência e neurodivergentes. Fazia sentido: era para elas que não existia lugar. Mas a gente tinha construído uma bolha bonita, e amizade dentro de bolha é amizade pela metade. Então a gente furou a bolha. As turmas passaram a misturar: quem tem deficiência e quem não tem, quem fala e quem não fala, quem mora no Vidigal e quem veio de longe. Foi, talvez, a melhor decisão da nossa história.

A gente convida a cidade a subir o Vidigal e a entrar no Teatrinho; e desce com as nossas turmas para ocupar os museus, os teatros e as praças que também são nossos. Uma agulha pequena, no ponto certo, faz a cidade inteira respirar melhor.
Nove anos sem parar
Cada marco foi feito com muitas mãos.
2017
Depois de alguns anos de pesquisa, de busca por um espaço e de ideias rascunhadas, no dia 11 de julho uma família e alguns amigos do Vidigal se encontram pela primeira vez para criar junto. Nasce o Amigos do Ton.
2019
O grupo vira instituto, com estatuto e CNPJ, para poder crescer sem perder o jeito.
2020
A pandemia fecha tudo. A gente não parou: os encontros foram para a tela e a turma passou a produzir conteúdo de casa.
2021
Os encontros voltam a acontecer, agora nas ruas e praças do Vidigal, de máscara por muitos meses.
2023
Mudança de sede. O Nós do Morro acolhe o IMÚ e reabre as portas do Teatro Vidigal.
2025
Em parceria com o Nós do Morro, o IMÚ reforma o Teatro Vidigal: menos barreiras, mais segurança, espaço interno e área verde integrados. Mães do projeto e voluntários do Vidigal apoiaram a transformação. O teatro que nos acolheu ganha a cara de quem passou a viver nele.
2025
Entra em cartaz, no Teatro Vidigal, a primeira peça do IMÚ: Os Amigos Encantados do Ton. As crianças que inventaram a história nas oficinas são as mesmas que sobem ao palco.
2026
As crianças do IMÚ entram no clipe de lançamento do novo álbum da MonkinoA, e entram como artistas contratadas. O que começou como oficina vira trabalho reconhecido.









Mais de 100 famílias atendidas,
duas tardes por semana,
por nove anos seguidos.
Já foram mais de 800 encontros,
E a gente continua.
Dudu e Leide
Duas pessoas que explicam o IMÚ melhor do que qualquer texto.
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Quem está com a gente
Folia Tropical
Apoiador desde antes do primeiro dia. Desde 2014, o Folia Tropical realiza o Dia do Folia dos Amigos do Ton: desfile das escolas mirins na Sapucaí, gratuito, dedicado a ONGs que atuam com pessoas com deficiência. Foi dessa semente que o projeto nasceu três anos depois. Durante nove anos, foi quem sustentou o IMÚ sozinho, sem edital e sem patrocínio.


Grupo Nós do Morro
Em 2023, o IMÚ mudou de sede. Fomos acolhidos pelo Nós do Morro, que reabriu para a gente as portas do Teatro Vidigal, temporariamente desativado. Um palco que completa em 2027 quarenta anos de história e com a nossa chegada voltou a ter oficina toda semana. E não é só o palco: o teatro fica numa área verde, com um espaço aberto do lado de fora e uma figueira centenária no meio, majestosa, que vira sala de aula e sombra para rodas se formarem. Atualmente o IMÚ existe dentro de uma trajetória que começou antes da nossa e que a gente tem a honra de participar.




Três nomes, um só motivo

Amigos do Ton, 2017. Essa casa foi a nossa por quase cinco anos. Foi nela que o Amigos do Ton aprendeu a ser o que é: mesa cheia de tinta, roda no chão, mãe observando a atividade. O nome a gente não precisou inventar; bastou dizer a verdade: eram amigos, e eram do Ton. Por nove anos, foi assim que o Vidigal nos chamou. Amigos do Ton é o nosso grito de guerra, o que a gente puxa antes de subir no palco, e segue vivo em cada narrativa e cada criação que sair daqui.


Do Amigos do Ton nasceu a MonkinoA, uma empresa de impacto social que usa a arte como a gente usa aqui: para criar laços. Ela leva ao mundo as nossas causas, o que se inventa aqui, abre palco a artistas de dentro e de fora do território e ajuda a sustentar o projeto social que a originou. As crianças do IMÚ participam de cocriações: o que nasce na oficina pode virar música, teatro ou show. Um palco para todos, feito por todos.

Tudo começou com três irmãos e alguns bonecos. Ali, sem palavra, o Ton e eu aprendemos que a arte aproxima quem o mundo afasta. Lá fora faltava lugar. Então a gente fez um.